Como as escolas vão melhorar seu ranking no Enem (e a educação brasileira)

Como as escolas vão melhorar seu ranking no Enem (e a educação brasileira)

*Por Eduardo Calbucci

Sempre que é divulgado o resultado do Enem por escola, que é transformado num problemático ranking (pois coloca na mesma régua instituições de ensino com propostas pedagógicas muito distintas), surgem hipóteses para explicar o “sucesso” ou o “fracasso” de certos colégios.

Acredita-se – e parece que o senso comum vai mesmo nessa direção – que mais aulas, mais conteúdo, mais rigidez disciplinar, mais tarefa de casa, além de professores bem preparados e avaliações rigorosas, são o caminho mágico para colocar uma escola no grupo das “melhores” do país.

Uma coisa, porém, que precisamos questionar, como educadores que somos, é: será que os alunos que saem dessas escolas têm sucesso profissional? Será que eles são bons cidadãos? Será que eles são felizes?

Não sabemos, essa é a verdade. Porque, embora o sucesso no Enem seja desejável, ele não garante, por si só, um bom futuro para ninguém.

É por esse motivo que pensamos que a escola não pode apenas se preocupar com o ensino das disciplinas do currículo tradicional. Ensinar crianças e jovens a debater com respeito, a gerir as próprias emoções, a ter autocontrole, a criar empatia, a compreender a diversidade cultural, a traçar objetivos, a cumprir metas e a tomar decisões responsáveis deveria ser tão relevante quanto as aulas de Biologia, de Matemática, de Filosofia ou de Português.

Esse tipo de aprendizado, que envolve o que chamamos de habilidades socioemocionais, já é valorizado há muitos anos nos Estados Unidos e na Europa, mas ainda é incipiente no Brasil.

Em 2011, um grupo de renomados pesquisadores em Chicago fez um estudo, reunindo os resultados de inúmeras pesquisas que avaliavam o impacto de programas de aprendizagem socioemocional na vida de estudantes da educação básica. Ao todo, o estudo envolveu mais de duzentos e setenta mil estudantes.

A equipe de Chicago chegou à conclusão, com evidências robustas, de que esses programas eram responsáveis pela diminuição de problemas disciplinares, pela melhora na disposição para aprender e pelo aumento do comprometimento escolar. Além disso, a aprendizagem socioemocional contribuía para a diminuição da incidência de transtornos psiquiátricos. Parece claro que tudo isso é mais do que desejável no momento em que estamos preparando novos jovens para, de maneira autônoma, entrar no mercado de trabalho e exercer a cidadania.

Mas o dado mais surpreendente desse estudo foi outro. Os pesquisadores comprovaram que programas de aprendizagem socioemocional geravam uma melhora de 11%, em média, na performance acadêmica. Ou seja: conhecer as próprias emoções melhora a nota de Física; saber se colocar no lugar do outro aumenta o rendimento em História.

Para que se tenha uma ideia do que isso significa, o Ideb (índice que mede o desenvolvimento da educação básica no país) do Ensino Médio cresceu, nos últimos dez anos, menos de 9%: passou de 3,4 em 2005 para 3,7 em 2015. Lembremos que o orçamento do MEC, nesse mesmo período, aumentou mais de 200% acima da inflação. Talvez uma medida simples, como a inclusão de programas de aprendizagem socioemocional nas escolas, tivesse dado resultado mais expressivo.

No caso do famigerado ranking do Enem, imaginemos uma escola particular cujos alunos obtiveram nota média de 631 na parte objetiva da prova. Hoje, a escola estaria próxima da 340a colocação, considerando o país todo. Com 11% a mais de performance acadêmica, ela entraria no seleto grupo de escolas que obtêm médias acima de 700. Isso faria a escola ficar perto da 20a posição no ranking.

Não queremos alunos e alunas que apenas tenham bom aproveitamento no Enem, pois a educação é bem mais do que isso. Mas, mesmo que esse seja nosso principal objetivo, talvez não estejamos enxergando o melhor caminho para atingi-lo.

*Eduardo Calbucci é professor e fundador do Programa Semente

2017-09-19T15:31:10+00:00 Artigos|